sábado, 23 de maio de 2015

Um pedestre

Noite de chuva. Está diminuindo. Meu pulso pulsa mais fraco conforme o coração diminui o ritmo. Apenas mendigos me olham cambalear sobre a faixa de pedestres, a mesma faixa que atravessei quase todos os dias durante sete anos da minha miserável vida.

Quem é mais miserável afinal? Eu que caio falsamente em poças no asfalto disforme? Os mendigos que sob a proteção das marquises me veem dar um currupito paraguaio no ar sob as incessantes gotas de chuva? Os cães que esqueceram os mendigos e nem sabem que existo, pois dormem deliciosamente numa caixa de papelão?

Estatelei -me. Envergonhei-me. Meti-me numa maré de azar. Os deuses não me perdoaram, mas não me advertiram também. Destruam-se mutuamente seus calhordas!

Grito: “Aaaaaaaaahhhnnnnnn... Que agonia...”

Olho para todos os lados encabulado e ensopado. Não preciso chorar; a chuva faz isso por mim. Iluminado apenas pelas lâmpadas da rua, ergo-me com dor; no pé, no joelho, nas costas, na mão, na cabeça porque gritei, no coração porque ele parou.

Sinto-me leve agora que estou ereto. Caminho deslizando até a calçada. Os pingos suaves me atingem com uma ternura ácida que não me tateava anteriormente. Os mendigos estão atônitos, mas os cães não despertaram. Continuam em sonhos de filés. Invejo-os.

Agora, minhas andanças prevalecerão na ladeira que vem a seguir?

Parou de chover.

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