sábado, 16 de maio de 2015

Livre Iniciativa

Com um carrinho de pamonha Crispim fez meia vida. Veio do brejo, mal sabia ler e escrever nos primórdios da vida batalhadora, mas soube fazer as contas quando viu que deveria sobreviver. Como não tinha habilidades com a oratória, fez de tudo o que fora possível com a ação: fora açougueiro, pedreiro, pintor, encanador, traficante e feirante. Contudo, o milho se tornou sua âncora quando começou a vida de feirante e os derivados deste espécime vegetal moldaram sua modesta vida profissional.

Crispim vendia pamonhas no mesmo ponto há uns dez anos. Ficava numa avenida importantíssima da cidade, onde se localizam prédios executivos, e de frente para uma praça – que mais parecia um parque cheio de árvores de tão grande que era. O ponto era perfeito. E nele Crispim tinha uma clientela fixa que saboreava a comida mesmo negligenciando o método pouco higiênico do trabalho dele. O vendedor fumava e mexia com dinheiro antes e depois de mexer com a comida. Alguns questionaram a falta de açúcar ou mesmo de sal em suas iguarias. O vendedor nem ligava, pois sabia que a maioria dos pedestres era composta por clientes passageiros. Talvez nunca mais o vissem outra vez. O importante era vender as pamonhas.

Esse rito de passagem das pessoas dava uma sensação de liberdade a Crispim. Estacionado no ponto ele vislumbrava ser patrão de si mesmo, ou como seus colegas diziam, a livre iniciativa. Mal sabia o que isso queria dizer, no entanto, persistiu na vida fazendo as coisas, tomando atitudes. Condenava bolsas e cotas. “Preguiçosos e covardes”, bradava batendo no peito. “Eu persisti e consegui. Sozinho!” Pois é, assim como seus concorrentes: de um lado era o churrasqueiro; depois vinha o cara do amendoim; do outro lado, fixou-se a moça dos dogs, e atrás dela o pipoqueiro. Acompanhado dessas figuras como se fosse um clube fechado, Crispim sentia-se respeitado.

Certo dia, no sentido contrário da avenida, pararam um homem e uma criança na calçada. Eles manejavam um carrinho de milho e pamonhas. Pareciam demarcar território e este lugar era de frente para um grande edifício. Já no primeiro dia conseguiram vender quase tudo da mercadoria até o fim do dia. Crispim os observou atentamente e quando lhe indagaram sobre as intenções do vendedor de pamonhas de outro lado da rua, ele simplesmente respondeu: “Não vai durar.”

Algumas semanas se passaram e, Crispim sentia as vendas declinarem. Os poucos reais que não entravam apertavam o seu orçamento. O homem via seu rival do outro lado vendendo pamonhas febrilmente, mas não entendia esse sucesso afinal ninguém reclamava de queda nas vendas, nem seus colegas da praça. Não se deu por vencido e usou o método do capitalismo selvagem para eliminar a concorrência: denunciou o rival para a vigilância sanitária anonimamente.

Agentes da vigilância foram ao local no dia seguinte e, para não ser surpreendido, Crispim nem levou seu carrinho. Foi ao ponto como observador. Ele viu os agentes analisarem cada um dos ambulantes, os dos seus colegas e o do concorrente do outro lado da avenida.

“Cadê seu carrinho, Crispim?”, perguntou o pipoqueiro.

“Num deu pra trazê. Tá com a roda quebrada. Vou comprá outra no centro”, respondeu o pamonheiro. Mais interessado na queda do seu algoz, ele viu à distância os agentes conversando com o homem. Este apontou para o menino que contava o dinheiro arrecadado com as vendas de pamonha. E no fim nada aconteceu.

Crispim ficou desolado. Resolveu denunciá-lo novamente; desta vez, para a prefeitura por falso registro de trabalho. Como ele tinha tal registro foi trabalhar normalmente nos dias posteriores. Demorou quase uma semana para um agente municipal aparecer e, quando foi tratar da legalidade de trabalho do concorrente, nada aconteceu. E, muito puto da vida, Crispim ainda viu o agente comprar uma pamonha do homem. Não desistiu e proferiu nova denúncia: tráfico de drogas.

Ora, Crispim sabia como funcionava o tráfico em geral. Anos atrás havia sido preso com meio quilo de drogas variadas. Pegou seis meses de prisão e saiu da cadeia de cabeça erguida já que lá dentro conseguia traficar qualquer coisa. Porém, manteve-se longe desse tipo de coisa e se fixou na venda dos quitutes relacionados ao milho. Pelo menos era legal. Mas não era legal o que seu concorrente estava fazendo roubando sua clientela.

No auge da tarde do dia seguinte, Crispim observou dois policiais rondarem o carrinho do rival. O trânsito de carros e de pedestres não facilitava a visão dos acontecimentos, mas pode assistir aos policiais conversando com o homem. O tom era sério e o rival parecia espantado. Crispim se surpreendeu com a abordagem sem abusos, sem confronto. Logo sorrisos entre eles despontaram. Aqueles oficiais que deveriam retirar o homem dali ainda ganharam copinhos de curau e deixando o local rindo. Essas risadas geraram angústia a Crispim. Ele olhou em torno de si e viu pessoas demais sorrindo e se divertindo. Ele suava porque todos riam, riam de Crispim, o verdadeiro rei da pamonha daquela rua que estava por ser destronado. Virou chacota, voltara a ser um ninguém, um homem que decaía de emprego, um patrão subjugado.

Ao cair da noite, Crispim estava um caco. Entristecido e desestimulado desmontava seu carrinho. Vendeu pouco, muito pouco... Então, percebeu dois colegas cochichando. Investiu sorrateiramente a fim de se inteirar no burburinho e viu-os devorando uma pamonha cada. Crispim quis saber a origem daqueles quitutes, pois não os tinha vendido para parceiros. Mas ele sabia a resposta e queira ouvi-la, queria saber o porquê. “A pamonha dele é mais docinha.”

Enraivecido, cego, Crispim pegou o facão cortador de milho. Atravessou a rua apressadamente para acabar com a concorrência de uma vez por todas. O homem desmontava seu carrinho em meio à escuridão, pois a lâmpada do poste queimara. Crispim usou o escuro a seu favor. O rival e seu herdeiro tombaram como porcos abatidos. E as pamonhas deixaram de ser vendidas naquela avenida.

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