"Um homem, em Monte Carlo, vai ao cassino, ganha um milhão, volta para casa e suicida-se."
Anton Tcheckov
Um homem foi a Monte Carlo. Vestiu sua melhor roupa e se permitiu arrumar da melhor forma possível. Sentiu que nada tinha a perder, pois tudo já fora perdido. O ato de ir a Monte Carlo moldou parte de seu futuro e a viagem fora longa, mas a entrada no cassino definiu sua existência por completo.
Com poucas notas caminhou por um saguão espaçoso e decorado com pinturas de séculos passados. Entrou como se infiltrasse pela porta dos fundos. Trocou o dinheiro por parcas fichas. Cada uma delas jogada era uma ferida ainda não cicatrizada sendo aberta em seu corpo. O homem sangrava em meio às demais pessoas e seus olhos atiçados por conquistas alheias. Cartas voadoras o defrontavam, a roleta girava e as fichas subiam andares sobre as mesas. Um cético vivendo entre ilusionistas e iludidos. Saiu pela mesma entrada carregando o peso dos problemas do mundo.
Deixou para trás a classe sedutora de Mônaco de navio. Viajou entristecido de volta à sua terra natal. Foi a um banco depositar a fortuna numa conta antes de chegar ir pra casa. O gerente do banco apertou-lhe a mão sorridente como se fosse um antigo amigo. O homem partiu daquele lugar pobre. Não havia mais nada em sua carteira a não ser parcas moedas. Usou-as. Primeiro foi a uma loja de doces e escolheu um sonho, o mais pulsante em recheio. Sonhou. Seus olhos cintilantes estavam fixos e perdidos, sua mente saboreava em comunhão ao seu paladar cada pedacinho de massa e creme, seu coração batia suavemente ritmado como se sua própria alma o bombeasse. Nunca havia saboreado um doce daquela forma.
Então, os ritmos cardiológicos se intensificaram quando o homem viu seus inimigos, os cobradores que o puxaram para o caminho sem futuro. Eram aqueles a quem devia uma fortuna e foi para a ganância deles que ganhou o dinheiro do cassino. Uma sensação claustrofóbica o deixou sem ar. Encostou-se no poste para não cair no chão. Isso o deixou triste, pois se lembrou de atitudes que perduraram por muito tempo e que nunca teve coragem de resolvê-las. A culpa fora exclusivamente dele ao acabar com o sonho que um dia teve.
Andou cabisbaixo pela rua. Passou por um mercadinho e usou o resto das moedas. Ao chegar à casa ajeitou as compras sobre a mesa. Depois retirou uma faca da cozinha, sentou na poltrona, uma muito velha e rasgada, e cortou os pulsos. Da maneira certa, como uma linha paralela às veias do braço. Pensou no sonho da tarde e nos sonhos de outrora, mas o que mais imaginou foi o futuro que não veria.
Os cobradores chegando ao local, arrombando a porta, vendo-o morto com os dois braços esticados sobre a poltrona, a cabeça erguida de forma imóvel e imperativa. Sobre a mesa pegariam um saco de papel e veriam um bilhete preso com durex. Um deles retiraria do saco uma grande espiga de milho, crua, cheia de fios e então leria o bilhete para o comparsa: “Este é todo milhão que vocês conseguirão de mim.”
Você é mesmo genial.
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