segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Jazz

Num shopping center, caminho lado a lado com Marco Antonio, um grande amigo que, em torno de seus 50 anos, conta-me histórias maravilhosas dos tempos de trabalho em uma loja da Galeria do Rock. Naquele ambiente, conheceu grandes músicos do hard rock, metal e blues, e se vangloria de receber pequenos apetrechos dessas pessoas, mesmo que não estivesse a par de todos os seus projetos musicais.

Damos a volta em uma imensa rotatória interna onde se pode ver todas as plataformas do shopping como uma grande bolo em camadas. Ao nos dirigimos às escadas rolantes, os passos estão atrasados em relação ao som de Bee Gees, manifestado de uma loja de Cds nas proximidades. Por nós, um Barry Gibb apressado passa e sobe as escadas rolantes. Marcão me deixa subi-las solitariamente.

No andar superior, há um bar muito semelhante aos frequentados por gângsters dos anos 40. O lugar cheira à cortiça molhada com vinho. Não está cheio; as pessoas se preparam para o que a noite lhes reserva. Os músicos estão ensaiando enquanto os garçons limpando mesas, louças e talheres.

Ocupo uma mesa. Um homem negro, bonachão, que estava no palco, senta num banco, de frente para mim. Num estalo, pede um microfone e, sem delongas, recebe um do garçom. Rememoro o nome deste cantor, vestido elegantemente com um terno cinza. Fats Waller era seu nome.

Ele canta de forma belíssima, com trejeitos suaves recheados de galhofas. Os funcionários param de trabalhar e assistem um showzinho à parte. Em volta de mim umas quinze pessoas se cativam ao ouvir tamanho poder vocal. Um ciúme desponta em Gibb, estaticamente apoiado no balcão. Vi-lo de relance. Na noite passada, ele havia perdido um concurso para o jazzista. Ou foi isso que cochicharam no meu ouvido.

E atrás de Waller, assistia ao pocket show um jovial Eric Clapton, sem barba, com atenção focada na voz e nos trejeitos do cantor. Como ele, estou hipnotizado. É provável que possa haver um duelo de interpretações ali, porém não posso me lembrar no momento. Só sei que durante horas observei todo o ensaio, o show posterior até altas horas da madrugada e o fechamento do bar no início da manhã.

Mascarado

Autor: Thiago C M N. Data: 1999