segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Reservado



Aos 14 anos, depois de sair da escola peguei o metrô na estação São Bento com destino à Paraíso. Nessa época eu praticava a loucura de não comer nada das 7 da manhã até à 13h, ou seja, uma hora daria problemas e, certa vez, por ironia do destino desmaiaei na Paraíso. Burro.

Mas neste dia, ocorreu outra história. Devido à falta de alimentação, quando o vagão esvaiziou na Sé, sentei num dos bancos que ficam ao lado das portas auomáticas. Não me recordo se nessa época os assentos reservados possuíam a cor acinzentada, porém mesmo antes dessa mudança sempre houve placas que indicavam o acesso à pessoas necessitadas.

Enfim, era horário de almoço, esyava com fome e cansado, sentei. Só que naquele mundaréu de gente que entrou pelo outro lado do vagão, um senhor parou à minha frente. Dali até a Liberdade, ficou esperando por algo. Tomei a minha liberdade de ficar ali mesmo. No entanto, a pessoa que estava ao meu lado cedeu seu lugar.

O idoso quis tirar satisfação. Primeiro perguntou em que escola eu estudava. Respondi já que meu uniforme me denunciava. Depois questionou se lá eu aprendia educação. "Sim", falei, "e em casa também". Ele bufou enquanto explicava porque não lhe cedi o lugar. O velho puxou conversa com uma mulher me questionando já que obviamente não acreditou. Daí, simplesmente disse: "não encha meu saco".

Fui sentado até a estação Paraíso ouvindo besteiras à minha volta. Desde aquele dia aprendi três lições: não deixar de comer na hora certa, não sentar em um lugar sem saber se alguém mais necessitado (ou desesperado) estiver presente e SEMPRE carregar um walkman.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Notas

No último dia 13 de agosto, durante a Bienal do Livro, a jornalista Katherine Funke lançou oficialmente o livro notas mínimas (letras minúsculas mesmo), baseado em seu blog homônimo que fora alimentado entre abril de 2007 a janeiro de 2009.

Catarinense, a escritora nasceu em Joinville e foi mora em Salvador, Bahia, aos 22 anos, onde atua como repórter em jornais e revistas. Em 2006, foi contemplada com um prêmio significativo na área, o Concurso Tim Lopes de Investigação Jornalística, além de ser finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

Fruto de seu trabalho, Katherine percebeu a quantidade de anotações que guardava e optou por criar historietas. Por sua vez, viu-se motivada em relatá-las num blog, pois vários de seus amigos os tinham e haviam conquistado uma rede de leitores.

“Queria fazer o que não podia no jornal que era a parte poética”, revela. “E já que se fala muito de linguagem da web, testei algumas praticidades. Logo vi que, como leitora de internet, não gosto de ler textos longos. Isso ajudou a definir os microcontos”.

O blog tem as vertentes da ficção e da não-ficção; o livro foi dividido da mesma forma, mas pelos termos divididos da palavra haikai. A forma poética de origem japonesa valoriza a concisão e a objetividade, uma marca dos contos de Katherine que, por outro lado, não necessariamente se apóia na mesma simetria oriental. A idéia é ressaltar uma síntese poética, ou uma prosa poética.

Em meio a questões do livro digital, notas mínimas floresce no mercado editorial pela inversão de mídias. Por sua vez, o trabalho da Solisluna Editora deixou a escritora surpreendida.

“Da web para o papel mudou muita coisa. Imaginava um livro do século XIX, mas a editora soube adaptar a linguagem deixando-o dinâmico, sem monotonia. No blog os textos são todos iguais”, comentou.

Dentro dos parâmetros de transição do mercado literário atual, ela nada contra a maré e crê que o livro impresso não irá ter fim, ao menos não tão cedo. “O blog se acessa por um equipamento, o livro se carrega para qualquer lugar”, rematou.

notas mínimas
Solisluna Editora, 127 páginas, R$ 29,90 (preço sugerido na Bienal do Livro)

**Matéria originalmente publicada em 19/08/2010 no Portal Varejo**