Três caquis estavam num prato de alumínio sobre a mesa. Eram idosos, enrugados, muito encostados uns nos outros, o que parecia indicar ausência de mais deles. No espaço vago pequenos círculos possuíam formação pastosa, alaranjada, e uma esquadra de mosquitos pairava sobre o prato, incitados pelo aroma tanto dos caquis presentes quanto pelo líquido que ficou dos ausentes. Eram como urubus diante de uma carniça.
Mas os caquis não eram cadáveres... Ou eram?
Era fácil arrancar-lhes a frágil pele deixando-os em carne viva. Depois os partiriam revelando as veias que derramariam sucos, e os músculos que arrebentariam os nervos até serem devorados por ansiosos predadores. Se caíssem da mesa eles nunca quicariam, mas explodiriam no chão deixando seus órgãos esmagados à mostra dos ventos e da putrefação.
Vê-los assim, nesse estado decadente, gerou-me recordações da juventude e meu irmão surgiu nos pensamentos. Há muitos anos ele era um rapazinho que se lambuzava comendo caquis. Sujava suas camisetas com o caldo do fruto e ao sair à rua parecia ter passado numa poça de água cheia de barro. Até certa vez quando alguém gritou “olha o açougueiro!” De fato, o garoto parecia ter saído de um matadouro com sua camisa cinzenta e sua bermuda colorida toda manchada de um vermelho intenso. O jovem "fruticida" que fantasiava ser médico acabou uma década depois se tornando prisioneiro de outros desejos numa cela de concreto.
Visitei-o ocasionalmente ao longo dos anos. Muitas vezes o vi sentado, cabisbaixo e encostado em si mesmo num canto de sua cela, fincando o rosto nos joelhos. Sem vidros, sem espelhos, sem um prato de alumínio para ver seu reflexo, mesmo que distorcido. O lugar era opaco e lúgubre lembrando mais um calabouço medieval do que uma prisão comum. Parado naquela posição eu pensava que ele escondia sua vergonha, mas nada havia de vergonhoso me respondia.
Em uma passagem mais demorada, meu irmão qualificou os caquis como apetitosos desde o princípio. Inspirava-o quando os via criando forma enquanto infante fruto, crescendo vibrantemente e pulsando energia, brilhando em meio à natureza, amadurecendo bem para serem apreciados no momento certo. Ele amava caquis demais e sempre falava das frutas.
Certo dia, os médicos conversaram comigo. Segundo suas observações, a fruta era citada, porém não fazia parte da imaginação. Um membro familiar agia de acordo com um princípio culinário de intensa vontade, com intuito de assimilar o objeto a fazer parte de seu corpo e de sua alma como num ritual antropofágico. Quando meu irmão dizia como tirava a pele do caqui usando sua boa habilidade manual e arrancava nacos da carne com os dentes saboreando-a a cada segundo, percebi que não era uma literalidade, do ato de comer uma fruta. Isso embrulhou meu estômago, pois deixou de ser uma fantasia alucinante.
Nunca mais ousei comer caquis. Agora só como laranjas.