A moça quase nunca chegava tarde à sua casa. Desta vez não pode evitar. O calor e o trânsito deixaram-na mais cansada do que suas tarefas diárias. Atrasada, pegou o filho na escola que estava bastante chateado de tanto esperar. Não ofereceu o beijo habitual na bochecha da mãe e chegou a expressar birra ao receber um beijo dela, talvez por estar molhado de suor. Mas não esperneou e logo se acalmou.
Em casa, a moça não teve tempo para descanso. Não havia janta do dia anterior pra esquentar, não tinha comida congelada pronta pra micro-ondas e perdeu a chance de comprar algo na padaria. Ela estava com fome, muita fome. Mas pensou no filho... E no marido que estava por vir! Ele até cozinhava, mais do que ela, mas neste dia atípico também chegaria tarde. Seria algo profundamente lamentável se o pobre coitado se deparasse com dois vazios, do estômago e da falta de comida feita.
Impondo-se a tarefa árdua do momento, a moça nem trocou de roupa. Foi pra cozinha, pôs um avental que esvoaçou em protuberante cena, lavou as mãos, pegou os potes de arroz e de feijão, depois a carne moída crua do freezer, a cenoura e a mandioquinha da geladeira. Pôs tudo pra cozinhar com fascinante agilidade.
Então o menino reclamou de fome. Mas a janta demoraria pra estar no ponto. A mãe buscou alternativa enfiando seus olhos de coruja em cada canto da cozinha. Voltou ao armário e encontrou um pacote. Era colorido, levemente retangular, cheio de sódio e sal, calórico, sem gosto de massa, viciante. Um pacote de Miojo. Ela olhou aquele aperitivo e pensou se era digno oferecer ao menino alimento sem os nutrientes adequados. “Que seja!”, pensou sozinha. Fechou o armário e disse na mais calma e terna voz: “Já já tá pronto querido.”
Em ralos minutos o Miojo ficou pronto. A mãe serviu ao menino um pratão cheio de massa em formato de cérebro com tempero industrial sabor tomate. Não é a melhor refeição que existe, ela sabia, mas quebra um galho em tempos de guerra e tempos perdidos da vida cotidiana.
O menino torceu o nariz de maneira muito sutil. A mãe não viu. “Pode comer”, disse ela. O filho pegou o garfo de sobremesa, enrolou os fios de massa e abocanhou o alimento. Agraciada, a mãe lhe fez um carinho no pescoço. Agora era hora de esperar e terminar a janta de verdade.
Mais tarde, o marido chegou bastante cansado. Cumprimentou o filho que desenhava numa folha sobre a mesa. Beijou a esposa.
“Um que cheiro bom”, respirou fundo. “O filhote comeu?”
“Comeu sim. Comeu macarrão”, respondeu a mãe.
O menino que estava quieto disparou em salutar vontade de corrigir o erro materno. Deixou o pai estupefato e a mãe profundamente irritada porque, no fundo de seu coração, sentia-se apunhalada. O que o menino teria dito?
“Macarrão não, mamãe. Miojo!”
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