quinta-feira, 14 de maio de 2015

Divindade dinâmica

Certa vez, Zeca saía de uma missa dominical em uma deliciosa manhã de primavera. Pairava um aroma suavemente adocicado de flores molhadas, pois havia chovido durante a noite e as árvores e arbustos na rua estavam cheios de si exibindo uma coloração esverdeada pulsante com a luz do sol nascente que os arrebatava. Zeca encontrou uma amiga, Lúcia, e notou muita felicidade nela.

“Olá, como você está?”, perguntou.

“Estou me sentindo bem.”

“Estou vendo. O que aconteceu pra você se sentir assim?”

“Como Deus é bom! Você não acha isso?”

“Sim. Concordo.”

“E é muito inteligente. Ele é perfeito, fez coisas perfeitas e sensatas", declarou ela.
Zeca pensou um pouco antes de dizer a próxima frase, mas tão logo quis proferi-la Lúcia o interrompeu.

“Veja só esta árvore!”, Lúcia aponta a uma macieira e retira uma fruta do galho. “As maçãs e as jabuticabas nascem em árvores enquanto as melancias brotam do chão. Já pensou se fosse o contrário? As melancias cairiam em nossas cabeças e poderiam nos matar. Deus não poderia ser mais inteligente.”

Lúcia sorria para ele mostrando a fruta como se Zeca nunca tivesse visto uma na vida. Era um sorriso feliz que combinava com aquela manhã primaveril que parecia longe de terminar. Enquanto olhava aquele rosto exuberante Zeca indagou nos seus pensamentos se a moça foi cativada pela missa recém-assistida. Porém, ele sorriu com outro sorriso, que nada tinha de feliz, mas estava recheado de ideias.

“E o que você me diz das jacas?”, soltou livremente a questão. “Elas também nascem em árvores e poderiam matar qualquer um caindo delas.”

O sorriso de Lúcia desapareceu e boquiaberta parecia não conseguir uma resposta. Zeca continuava sorrindo.

“É uma exceção”, disse Lúcia com voz baixa como se quisesse esconder de si tais palavras.

“Como os abacates e os cocos?”

Lúcia se sentiu ultrajada. E caçou em sua mente algo que tirasse aquele sorriso “não-feliz” da cara do seu amigo. Cavou o máximo que pode em milésimos de segundo e retirou uma história contada na escola. “Se um abacate e não uma maçã tivesse caído na cabeça de Isaac Newton ele não teria descoberto a lei da gravidade”, declarou destilando um fiapinho de raiva.

“Talvez ele descobrisse de outro modo”, respondeu Zeca.

“Não poderia porque um abacate é pesado. Iria matá-lo.”

“Uma maçã também poderia causar um estrago.”

“A maçã é pequena.”

“Entendo”, resignou-se Zeca até que vislumbrou uma nova ideia. “E se a macieira estivesse plantada no alto de um morro? E se esse morro fosse íngreme e alto, muito difícil de subir? Daí, Newton diz ‘estou cansado, não vou subir até lá’ e resolve sentar ao lado de uma rocha no pé do morro, quase embaixo do topo dele, e justamente onde está a macieira. Então bate um vento forte que sacode os galhos e faz a maçã se soltar e cair.”

Lúcia abre a boca, mas é interrompida por Zeca.

“Quer dizer, precisaríamos analisar essa questão: uma leve maçã, pesando cem gramas, viajaria – sei lá – trinta metros em direção ao chão. Como a gravidade equivale a uma força específica e a queda teria certa velocidade, maior do que a velocidade inicial, o impacto seria destruidor caso atingisse o cabeça de uma pessoa. A maçã provavelmente teria o dobro do peso, senão mais. Causa mortis: newtoniana. Se uma singela maçã tem tal poder nessas circunstâncias, eu diria que Deus não foi tão genial assim.”

“VÁ PRO INFERNO!”

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