O texto abaixo é uma tentativa de criar diálogo com a cena do vídeo - este sem som.
Marina corre até a cozinha para retirar do forno a comida deixou assando. Artur está sentado à mesa de jantar, esperando ser servido pela esposa. Está perdido em pensamentos.
“O Marcos saiu com a Ruth de novo, sabia?”, diz Artur em tom alto.
“É?”, responde Marina também em voz alta ajeitando a comida num prato.
“Foi ontem.”
“Seu amigo não tem pudores, não?”, diz Marina saindo da cozinha com a janta nas mãos. “Ele sai com a Glória também. Está acabando com as duas.”
“Acha estranho?”, pergunta Artur enquanto vê a esposa ajeitar o prato sobre a mesa para ele.
“Pareciam apaixonados. Ao menos, vejo assim.”
“Acho-o um sacana!” Marina volta à cozinha. “Ele sai com a Ruth numa semana e sai com a Glória em outra”. Ela abre a geladeira. “Não existe sequer limite para a saia justa. Quando as duas se encontram, nem percebem nada. Às vezes acho que nenhum deles bate bem.”
Marina pega uma jarra com suco e despeja o líquido num copo enquanto volta à mesa de jantar. “Outro dia elas se viram na padaria e se cumprimentaram. Vi Marcos do lado de fora suando frio. Ele até tremeu a boca quando fui dar um 'oi'.” pausa “A Glória acha que ele a trai.”
“São adultos, não?”
“Mas fico indignada com a choradeira depois.”
Artur pensa em dizer algo, mas resmunga com um bufo rápido, ou uma respiração forte, tomando fôlego para comer.
“Está errado ele usá-las assim. Depois sou obrigada a ouvir: 'será que gosta de mim?', 'não sei se gosta de mim', 'estou perdida', 'me aconselhe'.”
“Pegue o cinzeiro pra mim, por favor?”, pede Artur.
Marina sofre um leve espanto pela interrupção, mas se levanta e vai à cozinha. Pega o cinzeiro e o deixa sobre a mesa à frente de Artur. Então continua soltando seus pensamentos em voz alta. “Ele parece um covarde. Se quer algo aberto converse com elas.” Ela gesticula dando uma martelada no ar: “Seja justo com elas.”
“O que pensa em fazer?”, intriga-se Artur.
“Devia falar para elas desse triângulo e elas que dessem um pé nele!”, invoca Marina. “É um absurdo esse tipo de romance se é que pode ser chamado assim! Marcos deveria ser direto e não um banana medíocre!” Depois de uma leve pausa diz: “Ele nem é bom em sexo!”
“Como sabe?”, fala Artur movendo a cabeça para baixo encafifado com a afirmação de Marina.
“Glória me disse uma vez... Ele não levanta o amigo e só quer saber em... Bem... Hum... por a boca lá embaixo.”
Artur se surpreende: “É serio isso?”
Mariana responde: “Talvez seja por isso que ele tenha duas. Para saber se ainda conquista alguém dessa forma.”
“A Ruth te falou o mesmo?”, questiona o marido.
“Por incrível que pareça nunca mencionou.”
“Então deve ser só com a Glória.” Artur oferece um sorriso de escárnio. “Vai ver que é treinamento”, ele respira enquanto come, “não é?” Artur acha graça no que disse e Marina passa a sorrir mais para ele.
“E a boca dele? Como fica?”
Marina move a cabeça desengonçadamente como se não quisesse pronunciar determinadas palavras, um vocabulário mais sujo. Ela acha graça, mas está sem graça.
Artur pega o cigarro que está aceso sobre o cinzeiro. Não o fuma, mas pensa um pouco com ele entre os dedos.
“Depende de como vemos isso. E se a Ruth souber da Glória? E se a Ruth ensina o Marcos a conquistar a Glória aos poucos? Hein?
Marina fica um tanto avermelhada e ela então passa a rir envergonhada. Artur ri aos poucos decifrando os pensamentos da esposa. “Pensa nisso?” Artur solta uma bitoca, move a língua rapidamente no ar como se estivesse lambendo vorazmente e então solta uma gargalhada que reverbera para Marina.
“Seu sujo!”, diz ela.
As gargalhadas ficam ainda mais soltas.
“Gostoso vai!”, responde Artur.
Marina ri tanto que não consegue respirar direito. “Vou morrer com essa!”, diz. “Não devia falar assim na mesa!” Ela continua rindo. “Não consigo...”, pausa “Sua culpa eu imaginar aqueles dois agora.” Mais risos. “Não sai mais da cabeça.”
“Ele é tão panaca”, diz Artur rindo com um ar de menosprezo.
“Ele é um aprendiz!”, diz Marina que gargalha novamente.
“Acho que o Marcos não teve uma adolescência muito produtiva”, apresenta Artur um argumento com um ar mais sério.
“É um imberbe”, responde Marina que não consegue parar de rir.
“Nem todos são glorificados pelas as ninfas ué? Conheci um cliente certa vez que gostava de falar bizarrices sexuais porque, segundo ele, demorou muito tempo para se soltar com as mulheres.”
“Pare com isso!”, diz Marina. Ela move os braços para frente como se quisesse interromper o diálogo e então pudesse parar de rir.
“Mas é verdade!”
“Mas tá errado!”, diz Marina baixando a cabeça e encostando o rosto na mesa de forma meio brusca. Ela parece querer descansar.
“Depende”, responde Artur.
Marina ergue a cabeça. “E a pobre Glória não foi glorificada” e depois volta a bater a cabeça no móvel novamente.
“Pois é. Injusto para ela”, resigna-se o marido. “Peraí que vou pegar um guardanapo pra você.” Artur se levanta observado pela esposa que enxuga as lágrimas com os dedos e termina de rir.
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