Adoro visitas. Sempre gostei enquanto vivi. Também adoro presentes. Minha vida era curta e a melhor situação da minha carreira seria ser presenteado. E o presente era ser sorteado por alguém que me escolhesse e me levasse ao mundo exterior. Meus irmãos, primos e amigos compartilharam do mesmo desejo. Quando chegava esse momento sabia do destino que me aguardava e estaria pronto para o que desse e viesse.
Nasci num lugar muito longe e fui levado a outro lugar, muito apertado. Não reclamei de nada, não. Vestiram-me e cuidaram de mim com gentileza. Na moradia temporária entrei com meus irmãos numa ala; meus primos ficaram na ala a lado. Era para estabelecer as diferenças: magros ficam com magros, gordos com gordos, altos com altos, e assim por diante. Havia alguns amigos em lugares distantes e arejados. Eram locais elevados e, de certa forma, deixavam-nos livres. Quanto mais visíveis ficavam, mais eram levados. Não sei quantas despedidas dei nessa vida. Centenas talvez.
Olhava a fila de gente passando à minha frente. Ninguém me escolhia e não sabia o porquê. Todos ficavam apreensivos. Alguns irmãos se foram enquanto eu ainda permanecia encostado. De certa forma, fiquei desapontado. Um bom tempo se passou até que senti a ala vibrar. Beirava à sonolência quando alguém apontou pra mim. Sim, era pra mim! Fiquei tão feliz. Despedi-me de meus irmãos e primos enquanto era retirado da ala. Saí com tanta delicadeza que me sentia flutuando no ar como num doce sonho.
A pessoa me pegou de modo firme e parecia falar comigo sussurrando algumas palavras indecifráveis, pois não entendia seu linguajar. Pressenti algo estranho, tão delicado, tão suave na maneira como articulava. Por um motivo especial achei que não ficaria com esse ser, mas ficamos juntos por algum tempo e apreciei essa parceria.
Mais tarde, cheguei a um lugar muito iluminado e abafado. Estava tão quente que parecia que iria derreter. O calor me deu preguiça e moleza. Pensei em dizer ao camarada para me tirar daquele lugar, só que ele não entenderia patavinas do que eu dissesse. De repente senti uma tremedeira. O ser me segurou e me trocou de posição. Tudo isso andando. Aí parou!
Aquele que me tirou da moradia temporária conversava com outro ser. Era semelhante, mas diferente. Parecia ter traços mais delicados, uniformes, lisos, fios no topo e mais compridos, que caíam longamente. Duas coisas brilhavam como luzes, tinham intensidade e estavam fixadas diretamente ao meu amo. Ele sorria para essa pessoa e ela parecia corresponder. Quando ele ergueu o membro foi aí que entendi que eu seria entregue a esse outro ser. Eu era o presente! Fui pego com uma delicadeza incrível, tão fabulosa que me apaixonei. Minha massa interior parecia pulsar!
Os dois seres encostaram seus topos um ao outro por um breve momento. Depois aquele me retirou da ala nos deixou. Senti uma intensidade ali, um calor e não vinha daquele clima abafado. O novo ser esperou que o antigo se fosse e então saiu do lugar quente em que estávamos para aportar num local mais arejado. Estava gostoso e afável o clima. Então comecei a ser despido com cuidado. Nesse instante sabia que meu trabalho se completaria e nasci pronto para o encerramento da minha vida. Consenti que o meu aroma esvaecesse para a eternidade e deixei o sabor de cacau do meu ser nos lábios de alguém. E assim nasci, vivi e morri! Foi rápido, mas foi lindo.
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