sexta-feira, 8 de maio de 2015

Um ônibus lotado de cavalos

Um ônibus estava no meio da areia. Suas rodas murchas e deterioradas não permitiam que se locomovesse. Era um ônibus antigo, provavelmente dirigido pela velha escola de motoristas que vestiam uniformes e quepes. O tempo de sua permanência naquele lugar era uma incógnita, mas poderia ser medido pelo grau de ferrugem que dominava boa parte do veículo. Uma mancha mais ou menos horizontal marcava a metade inferior com cor marrom avermelhada de ferro corroído.

A maré alta e o sal contido nela fizeram o serviço de encerrar a vida deste imenso objeto. Mas, neste instante, enquanto o dia está ensolarado, o mar voltou a se distanciar do ônibus permitindo que ele respirasse. Deixou-o, porém, ser sitiado por caranguejos, caracóis, insetos grandes – alguns estranhos –, que, sob a sua sombra, fogem do sol que aquece gradativamente a areia.

Investiguei o veículo por dentro. Não havia nada muito instigante além de metal retorcido, poltronas rasgadas e cheias de bichos. O chão tinha um grande buraco no meio e era impossível atravessar o corredor de uma ponta a outra sem cair e pisar em destroços úmidos e arenosos.

Junto a mim havia um guia, conhecedor dessas bandas. Ele sabia de uma história sobre o ônibus. Segundo ele, homens foragidos, perdidos no mundo, usaram o ônibus para escapar da prisão, transporte que os levaria de uma cadeia a outra. Roubaram-no durante uma rebelião, mas não se sabe o porquê de terem parado ali onde não há estradas. Esses homens eram grandes de tamanho, tão fortes e imensos, que nativos da região o chamaram de "homens-cavalo".

A população local quando aponta para esta região deserta sempre se refere à praia do ônibus lotado de cavalos.

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