quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sombras

Anda pela rua um trabalhador braçal, um marido, um pai. O homem de meia idade, magro, de pele morena e peito avermelhado de tantos sóis da vida, veste-se de maneira simples: uma fina camisa clara, calça de sarja bege surrada e velhos sapatos marrons.

Seus passos são desiludidos; sua voz introspectiva; seus sonhos irrealizados. Volta para casa numa noite serena, limpa, bonita. Suas sombras percorrem o asfalto molhado à medida que ele passa por postes luminosos.

Praticamente à beira da estrada, o lar fica em frente a uma gigantesca pedreira. Há outras casinhas lado a lado à sua, mas seu maior vizinho é um posto de gasolina. Entra pela porta e... O silêncio. Acende a luz da sala e encontra um bilhete de sequestro: sua família desapareceu. Parecia esperar pelo sumiço dos entes como algo voluntário, mas não captura alheia, afinal enquanto o filho mais velho o odeia, o mais novo o adora; a esposa sequer lhe dá a mínima.

O homem não entra em desespero, porém se prepara para uma jornada. Toma banho, veste-se com roupas parecidas com as quais usava anteriormente. Pega um chapéu de couro e sai porta afora em busca da família. Sem um tostão, o máximo a que pode recorrer é o transporte público. Pega um ônibus, o primeiro que aparece. Vai até onde pode ir.

O tempo passa... Sua vida passa... Lembra do nascimento dos filhos por um momento. Desde que o mais velho nasceu, o menino o repudiou; o mais novo, no entanto, abriu-lhe um sorriso de alegria.

Resolve descer do ônibus; assim, sem mais nem menos. Enquanto o veículo some na escuridão da noite restando apenas os faroletes vermelhos, o homem fica parado no ponto observando. À noite a vegetação torna os locais mais sombrios, mesmo sendo iluminada pelos postes de luz.

Ele faz o caminho de volta, à pé, andando pelo pedacinho de acostamento que existe da via. Senão deve andar na grama, o que não vale a pena, pois está molhada e mais escorregadia.

No percurso, vê uma casa tipicamente norte-americana: sem grades, sem portão, o jardim aberto ao público transeunte e a entrada bastante iluminada.. O homem fica de frente para a porta vermelha com um adorno típico e um olho mágico. Não ousa chamar os donos. Está estático; apenas observa.

Na lateral da casa, uma criança surge correndo: é o filho mais novo! A alegria contagia o pai que o abraça com força. O menino diz algumas coisas, meio que sussurradas – afirma que a mãe foi embora. Também lhe dá um bilhete com inscrições dizendo quem fora o autor do suposto sequestro.

Aturdido, o homem não tem muitas palavras como se não tivesse escolha além de aceitar a ira de seu filho mais velho. A sua suspeita era verdadeira. O autor do crime só podia ser ele. Porém, este não era mais um garotinho; estava literalmente maior, mais velho, experiente, sábio e revoltado.

O homem segue seu caminho com o menino que segura com carinho um ursinho de pelúcia. Sem dinheiro para o transporte – mesmo porque não há nenhum na rua –, ele corta todo o trajeto sinuoso da via asfaltada pelo mato. O filho quase desaparece diante do capim alto e não se perde porque seu pai o segura pela mão.

Depois de muito andar, a vegetação selvagem passa a ser uma “vegetação de paisagismo”, isto é, segura e projetada artificialmente. Ao término de ambas, o gramado é sucedido por chão de pedra. Os dois pedestres chegam a uma mansão. No andar de cima dá pra ouvir o barulho de música e gritaria. Ambos se deparam com uma algazarra em volta de uma piscina. Eles não podem ver tudo o que ocorre, mas assimilam essa ideia devido a água espirrada com os mergulhos e as taças de bebida encostadas no parapeito da grade do andar de cima.

Algumas pessoas olham para eles com uma alegria forçada a álcool. Dizem besteiras, mas nada ofensivo. Os dois caipiras caminham paralelamente ao muro sem dizer nada. Ao dar a volta pela casa, veem um terminal de ônibus quase vazio. E por lá, poderão voltar para casa.

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