Certa vez, participei de um diálogo que teve um quê de coerência apesar da mediocridade do assunto. Como sou crítico demais (segundo alguns meliantes, não apenas "um", mas "o") a discussão serve de pretexto para uma idéia exagerada, porém, não menos realista do que pode acontecer com uma pessoa cética e cheia de determinismos.
Denominarei a mim mesmo como "A" e a pessoa que estava comigo apenas como "B". A conversa em si começou num carro em pleno trânsito da Marginal Pinheiros numa sexta-feira. Já estávamos entrando na ponte da Cidade Jardim. Eu roendo, como sempre, as unhas das mãos, num ataque voraz de mutilação e ansiedade. Feri um dedo e, logo, este começou a sangrar. Sentindo uma pontada no local machucado, indaguei:
A: Meu, comer unha é uma merda, me machuquei de novo.
B: É uma mania de merda. Eu também não consigo parar, isso é foda.
A: É uma bosta, vivo me machucando.
B: É, eu até me lembro quando comecei a comer a minha. Pensei: 'qual será a graça de comer unha?' Daí pus a mão na boca e me fodi, nunca mais parei.
Risos
A: Eu comecei porque via minha mãe comer e pensei em fazer o mesmo, daí fodeu.
B: A mão fica toda fudida e você não quer saber de parar, fica naquela vontade. É como se masturbar.
Mais risos
B: Meus amigos diziam: 'faz aí, é mó legal, muito gostoso'... Daí fui fazer, não sabia o que era. Não deu outra: a sensação era boa e você quer fazer toda hora.
A: Não pára mais. Fica até insano se não fizer.
Mais risos ainda
A: É como ser crítico. Você fica quieto e começa a criticar e não pára mais.
B: Sentiu o prazer de ferrar todo mundo com suas certezas e quer fazer isso sempre. Quer ser sempre o dono da verdade.
A: Gostou do prazer em ter certeza de tudo, depois quer criticar todo mundo a qualquer hora.
B: Acha que só porque ganhou uma discussão, vai ganhar todas. Nem se importa em perder, o negócio é criticar.
Nesse meio tempo já estávamos saindo da Cidade Jardim e entramos na avenida atrás do jóquei. O camarada que dirige o carro coloca um ponto final na conversa:
B: Mano, olha aquela puta! Quem vai querer isso? As celulites tão até pra fora.
Silêncio, mesmo porque a viagem terminou.
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