sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Diálogo

Certa vez, participei de um diálogo que teve um quê de coerência apesar da mediocridade do assunto. Como sou crítico demais (segundo alguns meliantes, não apenas "um", mas "o") a discussão serve de pretexto para uma idéia exagerada, porém, não menos realista do que pode acontecer com uma pessoa cética e cheia de determinismos.

Denominarei a mim mesmo como "A" e a pessoa que estava comigo apenas como "B". A conversa em si começou num carro em pleno trânsito da Marginal Pinheiros numa sexta-feira. Já estávamos entrando na ponte da Cidade Jardim. Eu roendo, como sempre, as unhas das mãos, num ataque voraz de mutilação e ansiedade. Feri um dedo e, logo, este começou a sangrar. Sentindo uma pontada no local machucado, indaguei:

A: Meu, comer unha é uma merda, me machuquei de novo.

B: É uma mania de merda. Eu também não consigo parar, isso é foda.

A: É uma bosta, vivo me machucando.

B: É, eu até me lembro quando comecei a comer a minha. Pensei: 'qual será a graça de comer unha?' Daí pus a mão na boca e me fodi, nunca mais parei.

Risos

A: Eu comecei porque via minha mãe comer e pensei em fazer o mesmo, daí fodeu.

B: A mão fica toda fudida e você não quer saber de parar, fica naquela vontade. É como se masturbar.

Mais risos

B: Meus amigos diziam: 'faz aí, é mó legal, muito gostoso'... Daí fui fazer, não sabia o que era. Não deu outra: a sensação era boa e você quer fazer toda hora.

A: Não pára mais. Fica até insano se não fizer.

Mais risos ainda

A: É como ser crítico. Você fica quieto e começa a criticar e não pára mais.

B: Sentiu o prazer de ferrar todo mundo com suas certezas e quer fazer isso sempre. Quer ser sempre o dono da verdade.

A: Gostou do prazer em ter certeza de tudo, depois quer criticar todo mundo a qualquer hora.

B: Acha que só porque ganhou uma discussão, vai ganhar todas. Nem se importa em perder, o negócio é criticar.

Nesse meio tempo já estávamos saindo da Cidade Jardim e entramos na avenida atrás do jóquei. O camarada que dirige o carro coloca um ponto final na conversa:

B: Mano, olha aquela puta! Quem vai querer isso? As celulites tão até pra fora.

Silêncio, mesmo porque a viagem terminou.

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