Certa noite, acordo sentado no banco de trás do carro. Meu pai dirige. Gotas d'água percorrem os vidros do veículo soprados pelo vento. É uma umidade oriunda do sereno e não de chuva... O som do lado de fora me trai quando as poças do asfalto se movimentam com nossa passagem produzindo um chiado molhado. E as luzes refletidas e distorcidas dos postes de luz também me fazem crer em um leve temporal.
O limpador de para-brisa faz seu zigue-zague apenas uma vez. Ergo-me e olho para os lados para reconhecimento do ambiente. As ruas estão desertas. Deve mais de meia-noite. À nossa frente há um carro luxuoso desses para homens de meia idade sentirem-se jovens. Logo percebo que o estamos seguindo.
Acompanhamos o muro alto à esquerda feito de grandes blocos de pedra; todo tijolado que parece mais um castelo. Do outro lado do carro só dá pra ver uma mancha negra, sem luz, sem vida.
O carro da frente liga o laranja piscante do farol e vira em direção ao muro onde há um túnel quase secreto em forma de arco. Meu pai faz o mesmo. A extensão do buraco é curta e voltamos a percorrer uma rua comum, recheada de pequenos edifícios e casas todos antigos.
A via vira uma ladeira e, ao término dela, passamos por portões de ferro. O asfalto da rua cede aos paralelepípedos que cortam o jardim de um enorme casarão. Luzes artificiais localizadas em pontos estratégicos beneficiam a aparência local e criam um clima de ostentação pura.
Os veículos param lado a lado. Saio sem muita pressa, mais preocupado em olhar ao redor. Do outro carro, o motorista se levanta. Por um lapso, o homem me parece familiar. Sua barba rasa e a camisa entreaberta lhe dão um ar cansado, porém ele se faz disposto abrindo leves sorrisos com seu rosto bonachão. Talvez estivesse muito tempo dirigindo. Os cabelos levemente compridos pareciam molhados... Só que reparando melhor, era gel mesmo, em excesso.
Ao andar, os sapatos cravam barulhos no chão perceptíveis a quem estaria ao longe, principalmente no silêncio que impera. Ele abre a porta de trás para uma garota loira – e especificamente para ela – enquanto outras pessoas saem pelo outro lado do carro.
– É aqui o lugar. Legal, né? – indaga o homem à garota. Os outros também o tinham ouvido e respondem no lugar dela.
Para mim só existia a fascinação por esse tipo de local, antigo e fantasmagórico. Conto três andares e muitas janelas que fracamente iluminadas por dentro sugerem que há mais pessoas no interior. Até parece acampamento de férias e sequer entendia o que estava fazendo ali... Meu pai não ficaria deixando-me sozinho. Sem olhar para trás pego minha mochila no porta-malas e entro na casa; comigo entram os demais oriundos daquele carro de luxo.
* * * * *
Quase uma semana. No casarão nada rola de interessante, a não ser hoje que era dia de festa. Sentado na batente de uma janela trancada do primeiro andar, vejo abaixo meia dúzia de carros parados e muitas pessoas conversando em panelinhas. Há também um entra-e-sai exagerado pela porta principal. Diversão para todos.
A música alta no térreo não incomoda tanto. As salas são adaptadas para absorver o som. Perambulei pelos compartimentos do primeiro andar depois de já ter feito o mesmo nos outros andares. Comigo estão alguns salgadinhos e um copo de ferro com vinho que tenho a mania de carregá-lo para todo lado.
Contemplativo, viro-me para ver o lado de dentro da sala. De longe, três garotas conversam, todas vindas daquele carro. Fico embaraçado só de observá-las. Vontade de ir embora quando uma delas olha para mim e volta a conversar com as outras. Medo de me afeiçoar ou ser fracassado na investida? Reajo: de maneira vulgar, caio fora do recinto.
Nas escadarias esbarro naquele motorista do carro. Ele conversava com algumas pessoas, mas, interrompido, sussurra palavras para mim. Nada grave ou ameaçador; entro em transe por um segundo e desperto quando recebo um delicado aperto no ombro. Olho para o homem; ele já está novamente batendo papo com seus amigos. Era como se eu fosse ignorado. Viro-me para ver o dono da mão que havia me pressionado e me deparo com uma belíssima garota morena, quase da minha estatura, que sem qualquer frescura me puxa pelo pulso de volta à sala.
Sento-me com ela e suas amigas. Todos nós nos apresentamos, contudo pelo meu nível esquecerei rapidamente quem são, suas feições e seu falatório. Cochicham bobagens deliciosas e logo percebo o interesse mútuo entre a bela morena e eu. O sangue sobe. Minha cabeça gira para elas em sentido horário e... E... Não consigo dizer nada.
* * * * *
Domingo de manhã. Ao andar por uma rua do centro da cidade, vejo pouquíssimas pessoas. Dependendo do beco ou viela, tornam-se raras. Os prédios altos não anulam a paisagem desértica; cinzentos eles esfriam cada caminho ao qual percorro.
Por um milagre um bonde passa por mim. Após um aceno, o condutor o para e corro para pegá-lo. Apesar dos bancos confortáveis, não há um lugar para sentar. Está lotado. Fico em pé num canto.
Dois amigos dos tempos de escola me reconhecem e se dirigem a mim para me cumprimentar. A felicidade é contagiante: relembramos muitas piadas de sala de aula e as mesclamos ao pretérito do futuro não realizado de nossas vidas. Assuntos no presente são tabus e ficam cada vez mais nebulosos.
Despeço-me e saio do bonde de maneira tranquila quando este para novamente. O veículo então continua seu percurso, mas agora desconfio que me perdi.
Sigo pela rua e, do outro lado, reconheço um portão de ferro pintado em grafite característico. Parece o colégio em que estudei. Seria possível? Nem é a mesma rua! Ao lado há uma parede de vidro me dando alternativa para visualizar o local: o pátio, os alunos com tradicional uniforme azul, os carros estacionados dos professores, ao fundo a quadra de basquete e atrás a cantina cheia de grades.
Nostalgia pura.
O limpador de para-brisa faz seu zigue-zague apenas uma vez. Ergo-me e olho para os lados para reconhecimento do ambiente. As ruas estão desertas. Deve mais de meia-noite. À nossa frente há um carro luxuoso desses para homens de meia idade sentirem-se jovens. Logo percebo que o estamos seguindo.
Acompanhamos o muro alto à esquerda feito de grandes blocos de pedra; todo tijolado que parece mais um castelo. Do outro lado do carro só dá pra ver uma mancha negra, sem luz, sem vida.
O carro da frente liga o laranja piscante do farol e vira em direção ao muro onde há um túnel quase secreto em forma de arco. Meu pai faz o mesmo. A extensão do buraco é curta e voltamos a percorrer uma rua comum, recheada de pequenos edifícios e casas todos antigos.
A via vira uma ladeira e, ao término dela, passamos por portões de ferro. O asfalto da rua cede aos paralelepípedos que cortam o jardim de um enorme casarão. Luzes artificiais localizadas em pontos estratégicos beneficiam a aparência local e criam um clima de ostentação pura.
Os veículos param lado a lado. Saio sem muita pressa, mais preocupado em olhar ao redor. Do outro carro, o motorista se levanta. Por um lapso, o homem me parece familiar. Sua barba rasa e a camisa entreaberta lhe dão um ar cansado, porém ele se faz disposto abrindo leves sorrisos com seu rosto bonachão. Talvez estivesse muito tempo dirigindo. Os cabelos levemente compridos pareciam molhados... Só que reparando melhor, era gel mesmo, em excesso.
Ao andar, os sapatos cravam barulhos no chão perceptíveis a quem estaria ao longe, principalmente no silêncio que impera. Ele abre a porta de trás para uma garota loira – e especificamente para ela – enquanto outras pessoas saem pelo outro lado do carro.
– É aqui o lugar. Legal, né? – indaga o homem à garota. Os outros também o tinham ouvido e respondem no lugar dela.
Para mim só existia a fascinação por esse tipo de local, antigo e fantasmagórico. Conto três andares e muitas janelas que fracamente iluminadas por dentro sugerem que há mais pessoas no interior. Até parece acampamento de férias e sequer entendia o que estava fazendo ali... Meu pai não ficaria deixando-me sozinho. Sem olhar para trás pego minha mochila no porta-malas e entro na casa; comigo entram os demais oriundos daquele carro de luxo.
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Quase uma semana. No casarão nada rola de interessante, a não ser hoje que era dia de festa. Sentado na batente de uma janela trancada do primeiro andar, vejo abaixo meia dúzia de carros parados e muitas pessoas conversando em panelinhas. Há também um entra-e-sai exagerado pela porta principal. Diversão para todos.
A música alta no térreo não incomoda tanto. As salas são adaptadas para absorver o som. Perambulei pelos compartimentos do primeiro andar depois de já ter feito o mesmo nos outros andares. Comigo estão alguns salgadinhos e um copo de ferro com vinho que tenho a mania de carregá-lo para todo lado.
Contemplativo, viro-me para ver o lado de dentro da sala. De longe, três garotas conversam, todas vindas daquele carro. Fico embaraçado só de observá-las. Vontade de ir embora quando uma delas olha para mim e volta a conversar com as outras. Medo de me afeiçoar ou ser fracassado na investida? Reajo: de maneira vulgar, caio fora do recinto.
Nas escadarias esbarro naquele motorista do carro. Ele conversava com algumas pessoas, mas, interrompido, sussurra palavras para mim. Nada grave ou ameaçador; entro em transe por um segundo e desperto quando recebo um delicado aperto no ombro. Olho para o homem; ele já está novamente batendo papo com seus amigos. Era como se eu fosse ignorado. Viro-me para ver o dono da mão que havia me pressionado e me deparo com uma belíssima garota morena, quase da minha estatura, que sem qualquer frescura me puxa pelo pulso de volta à sala.
Sento-me com ela e suas amigas. Todos nós nos apresentamos, contudo pelo meu nível esquecerei rapidamente quem são, suas feições e seu falatório. Cochicham bobagens deliciosas e logo percebo o interesse mútuo entre a bela morena e eu. O sangue sobe. Minha cabeça gira para elas em sentido horário e... E... Não consigo dizer nada.
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Domingo de manhã. Ao andar por uma rua do centro da cidade, vejo pouquíssimas pessoas. Dependendo do beco ou viela, tornam-se raras. Os prédios altos não anulam a paisagem desértica; cinzentos eles esfriam cada caminho ao qual percorro.
Por um milagre um bonde passa por mim. Após um aceno, o condutor o para e corro para pegá-lo. Apesar dos bancos confortáveis, não há um lugar para sentar. Está lotado. Fico em pé num canto.
Dois amigos dos tempos de escola me reconhecem e se dirigem a mim para me cumprimentar. A felicidade é contagiante: relembramos muitas piadas de sala de aula e as mesclamos ao pretérito do futuro não realizado de nossas vidas. Assuntos no presente são tabus e ficam cada vez mais nebulosos.
Despeço-me e saio do bonde de maneira tranquila quando este para novamente. O veículo então continua seu percurso, mas agora desconfio que me perdi.
Sigo pela rua e, do outro lado, reconheço um portão de ferro pintado em grafite característico. Parece o colégio em que estudei. Seria possível? Nem é a mesma rua! Ao lado há uma parede de vidro me dando alternativa para visualizar o local: o pátio, os alunos com tradicional uniforme azul, os carros estacionados dos professores, ao fundo a quadra de basquete e atrás a cantina cheia de grades.
Nostalgia pura.
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