sábado, 28 de agosto de 2010

Alimento

Em minha jornada para casa, parado em pé à espera do busão, observei um morador de rua dormindo, jogado na calçada e encostado na parede de uma casa. "Pobre coitado", pensei. Não que faça diferença, mas o pensamento era a taxa do dia, pois em questão de milésimos já estava imaginando outra coisa.

Como o ônibus demorava, parei pra ver o que estava ao meu redor: gente feia, bêbados, gente feia, mendigos, gente feia, pedestres e mais gente feia. A região não era ( e continua não sendo) muito agradável. Realmente, se Deus existe ele não fez o homem à sua imagem e semelhança. A imperfeição impera nesse mundo.

Logo depois, uma senhora para no ponto a alguns metros de mim. Olho ela e me viro ao dorminhoco que continua lá, em sua tranquilidade eterna. Meio raio de visão é cortado pela passagem de um homem. Ele se interrompe de repente. Olha o mendigo com atenção, aproxima-se... e o chuta! "Não acredito no que estou vendo! O filho da puta chutou o pobre indigente! Merece morrer, desgraçado!" Eu realmente pensei tudo isso, mas é apenas uma fagulha de indignação que seres humanos têm e na maioria das vezes não fazem absolutamente nada.

"Acorda aí", disse o velho que continuou a chamar a atenção do mendigo, chutando-o e resmungando. Ele tinha cabelos brancos, usava uma camisa vermelha de gola e bermuda cáqui. Magro e baixinho. Óbvio, viramos anões quando envelhecemos. Tudo murcha.

"Me deixa." Palavras do pobre homem deitado despertando de sua soneca matinal levada a muito álcool. Era um homem moreno com barba por fazer e a cabeça inchada de tanta bebida. Mas mesmo assim, minha vontade era de encher o idoso de porrada. Não se chuta uma pessoa, nem que seja um mendigo.

O velho levemente revoltado ainda pergunta: "O que você está fazendo aí?" Opa! Aqui a coisa muda de figura, afinal os dois se conhecem. Fiquei antenado na conversa. "Quantas vezes já te disse pra ficar naquela casa? Lá você pode tomar banho, dormir numa cama e comer alguma coisa", continuou.

O mendigo bradou: "Me deixa dormir. Não quero ficar lá, prefiro aqui." Ergue-se e se senta. Bufa. Resmunga algo indecifrável e fica com cara de bobo olhando pro nada. Quer dizer que uma cama quente o espera e o malandro fica dormindo na rua. O velho insistiu pedindo que o beberrão se levantasse. Mais calmo ainda jogou a pergunta de todos os nossos estômagos quando acordamos: "Tá com fome?".

Esse é o momento que nunca esperei na vida, um mendigo disparando uma frase célebre: "Tô, eu tava dormindo pra não sentir fome. Dizem que dormir também alimenta."

Naquele momento, o ônibus resolvera despontar na esquina. Os dois caminhavam juntos depois como velhos amigos. De mim, escapuliu-se uma risadinha. Nunca esqueci da frase.

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