Em abril deste ano [2009], meu avô morreu bem no aniversário da minha mãe, dia de Tiradentes. Não foi um infortúnio, mas já sabíamos que isso poderia ocorrer de qualquer jeito e, de um modo peculiar, torcíamos para que seu sofrimento enfim acabasse.
Desde 1996 eu não participava de um enterro. Nem sabia como era mais a espera, o cortejo e a tristeza. Via isso nos olhos de outros seja em filmes, seja pelos velórios desesperados das pessoas nos telejornais. Mas neste dia, e no seguinte, foram realizadas todas as preparações no hospital para se levar o caixão até a Vila Alpina onde o homem seria cremado.
Em meio a isso, a reunião de familiares gerou estranhas expectativas, pois, além de serem poucas pessoas, houve certo divertimento. Enquanto esperávamos o carro funerário sair do hospital, sentimos o cheiro de carne queimando na churrascaria ao lado. Deu-nos fome e nos lembrava de morte. Complicado... Mais tarde, seguíamos em cortejo fúnebre falando um monte de besteiras com primos, rindo de montão, xingando muita gente e muitas coisas.
Celebrei meu avô com felicidade, apesar de seus erros em vida e suas manias depressivamente tristes dos últimos anos. O decreto de luto para nós, mais jovens somente ocorreu quando o corpo foi velado por dez longos minutos na sala apropriada. Entre bênçãos e choros das filhas e das netas, o velho homem foi celebrado em um silêncio castigante. Seu rosto podia ser visto por um buraquinho aberto por um dos tios. Sua pele branca cedeu ao bege-roxo de um boneco de cera.
O tempo acabou de repente e o caixão desce à parte inferior do prédio. A tampinha do esquife fica na mão do tio que tenta colocá-la de volta, mas no fim ele não consegue parafusar e apenas a joga sobre a madeira. O genro sorri como se fosse uma última piada, digno do velho. Este nunca mais será visto em corpo.
Aonde quero chegar? Não ouso comparar meu avô a Michael Jackson. Nada pode ser dito entre ambos, apesar de que o velho gostava do estilo e dos passos desde músico mágico. É a essência. As duas cerimônias pareceram vazias, recheadas de falsos tributos e melancolia. Não senti pena, remorso, raiva ou tristeza. Senti nada. Será que fui eu que morri por dentro?
* Texto publicado em outro blog há um ano.
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